Dependência da Internet, família e a fábula do burro, na visão do Delegado Wellington

No dia-a-dia como Delegado de Polícia muitos me questionam sobre como resolver a dependência na internet e redes sociais de crianças e adolescentes, como se fosse um caso de polícia tal situação, contudo transformou-se em uma tarefa árdua.

Uma mãe me relatou e pediu pelo que é mais sagrado, que eu fosse em sua casa e apreendesse o celular e computador do filho, pois este não queria mais estudar, não queria ir à escola e não se dedicava as tarefas simples de seu lar, como por exemplo, tomar banho, escovar dentes, sentar a mesa para comer em família, relatando que seu filho estava dependente da internet e tecnologia. Um verdadeiro relato de vício, assim como as drogas.

Fato é que a internet e as mídias digitais dão ao indivíduo moderno a capacidade de aumentar os níveis de sociabilidade e os laços sociais por meio de novas formas de interação, estamos vivendo um mundo dinâmico. Hoje, nos vemos cercados de tecnologias que facilitam o contato entre as pessoas, empresas e todo o mundo que, concomitantemente, providenciam ferramentas para controlarmos a profundidade desses contatos.

E com a pandemia do Covid19 isso ficou mais acelerado,  estamos vivendo dias diferentes de outrora, dias em que temos que permanecer muito mais tempo em nossos lares, com acesso a notícias, fake news, educação através de ensino à distancia, home office, pedidos de refeições por aplicativos, buscamos incessantemente informações através de bússolas eletrônicas, compras online de toda natureza, hotéis, livros digitais, relacionamentos de amizade e afetivos, trabalhos, serviços públicos online, bancos, pagamentos, transferências, e-mail, mensagens, assistir filmes e seriados, redes sociais,  exposição da intimidade, liberdade de expressão, trabalhos especializados em todas as modalidades, consultas médicas, exames, jogos virtuais, entretenimento, golpes da engenharia social, crimes online e e etc.

Não seria mais fácil descrever o que não utilizamos em nossos dias sem a dependência da internet e das tecnologias?

Pois é, conseguimos saber muito mais sobre as pessoas e coisas que se encontram no meio virtual, mas na maioria das vezes apenas o que elas querem que seja de conhecimento alheio, que virem tendências. Ao mesmo tempo, selecionamos cada vez mais o que queremos saber sobre tudo e sobre todos. Usamos a internet e as tecnologias de comunicação contemporâneas para aplacar nossa solidão, nossa necessidade de consumir, de nos sentirmos felizes e com prazer e, ainda assim, exercermos controle sobre a intensidade das nossas conexões e de intimidade. Muitos crimes contra o patrimônio, a honra e sexuais estão tendo suas origens na internet. 

Muito desse comportamento deriva das alterações que ocorreram na sociedade física até o presente momento. Assim, procuramos compreender de que modo o indivíduo moderno adquiriu características que se mostram relevantes na forma como são construídos os laços sociais e vínculos afetivos, assim sendo transportado para a relação entre internet e a solidão do mundo contemporâneo.

Individualismo, narcisismo, consumismo e a rápida perda de interesse pelo outro e pelas diversas coisas expostas no meio – facilitada pela velocidade e dinâmica com que outras pessoas podem ser acessadas em seu lugar, ser precificado – o medo da intimidade são alguns elementos que acabam por se intensificar quando a principal forma de interação é por meio das mídias digitais e internet. A maioria de nós está cotidianamente imersa no meio virtual, deixando muitas vezes de cultivar o relacionamento diretamente entre indivíduos para realizá-lo por meio de dispositivos eletrônicos.

Faça um teste em sua casa e verifique durante as refeições, festas em famílias, roda de discussões se não há sempre alguém com o celular na mão, pronto para dar mais atenção ao mundo virtual do que aos presentes ali? A essa situação chamamos de nomofobia, ou seja, é o medo irracional de ficar sem o seu telefone celular ou ser incapaz de usar o telefone por algum motivo, como a ausência de um sinal, o término do pacote de dados ou a carga da bateria. Confessemos, todos nós somos dependentes de internet.

Hoje em dia já estão estudando a dependência de Internet (DI) como um novo transtorno psiquiátrico do século XXI. A DI é o termo mais frequentemente proposto para designar a inabilidade do indivíduo em controlar o uso da Internet, bem como o crescente envolvimento com as atividades virtuais, levando a um progressivo desconforto emocional e significativos prejuízos funcionais de crianças, jovens, adultos e até mesmo idosos. Há de se colocar limites nessas questões,  pois se toda sociedade utiliza como um modelo (paradigma) social o uso da internet, não há de se falar em  etiologia, ou seja, como se fosse o trato de uma doença. É preciso estabelecer novos processos de compreensão para estabelecer uma nova cultura.

Ocorre que muitos pais ou responsáveis por crianças e adolescentes relatam com frequência a influência do uso excessivo da Internet em seus filhos, bem como os déficits de comportamentos manifestados em suas rotinas, refletindo-se nas áreas familiar, acadêmica/profissional, social e na saúde física. Acrescentam-se dificuldades pela labilidade de humor, comportamento depressivo e reações emocionais impulsivas quando são restringidos no uso da rede mundial.

Mas, com que frequência esses pais e responsáveis vigiam os seus filhos na internet? Pois é, antigamente nossos pais cuidavam do marginal na rua, do traficante das esquinas, dos pedófilos nas portas de escolas, e agora onde eles estão? Pode ter certeza que estão no celular, na internet vestidos de cordeiros, sendo verdadeiros lobos! Claro, não é no aparelho, mas nas diversas redes sociais, aplicativos de comunicação, de vídeos e quem os supervisionam? Ninguém ou muito poucos.

E quando os pais descobrem já é tarde, e, na tentativa de oferecer ajuda, via  de regra, os cuidadores geralmente adotam recursos aversivos, visando a cessação imediata do comportamento abusivo. A vítima da internet, em contato com atividades e emoções prazerosas advindas da Internet e frente ao controle dos pais, foge e/ou esquiva-se, criando paulatinamente um ciclo desadaptativo de convivência familiar, e isso é péssimo, porque o porto seguro da família vai-se embora e cria uma desvinculação afetiva.

É claro que a família precisa intervir de forma estruturada, mas como fazer isso em um momento de nossa historia onde somos e estamos muito dependentes da tecnologia e da internet.

HER, In http://bit.ly/3ozO9c0

Estaríamos fadados ao comportamento  do solitário escritor Theodore, no filme “HER”, dirigido por Spike Jonze, em que desenvolve uma relação de amor especial com o novo sistema operacional do seu computador. Surpreendentemente, ele acaba se apaixonando pela voz deste programa, uma entidade intuitiva e sensível chamada Samantha? Logo, não causa estranheza que no filme sejamos apresentados a uma realidade na qual o sujeito se satisfaça unicamente com a relação direta entre indivíduo e máquina. A máquina supera as exigências que um relacionamento real talvez não pudesse fazer, ela confere ao seu usuário o que ele precisa para diminuir a solidão, sem as resistências e necessidades de um relacionamento entre indivíduos reais. A interação do homem com a máquina deixa de ser algo que surpreende quando pensamos no modo como estamos em conexão contínua e abrimos mão da presença física do outro em função da facilidade com que podemos fazer, ou desfazer, um contato.

A sociedade estaria dando preferência  para se  comunicar por meio da internet de redes sociais, pelas vantagens e defeitos que esse contato oferece, aliado ao fato de que ao focarmos nossas atenções em dispositivos móveis e outros itens tecnológicos que facilitam a comunicação digital, possamos estar perdendo as habilidades de contato físico e pessoal com outras pessoas e, assim, deixando de fortalecer vínculos.

É interessante salientar, ainda, o modo como, atentos ao mundo virtual, os indivíduos podem estar passando apáticos pelo mundo real, perdendo contato com seu redor imediato. Assim, ao fazerem da internet o seu principal meio de contato com o mundo, cria-se a sensação de nunca se estar sozinho, mesmo quando se está, sendo esse meio simples paliativo para a solidão.  Aos adeptos dessa ideia, esse tipo de relação seria mais fácil de manter, criando o desinteresse no aprofundamento dos vínculos sociais, gerando, por fim, indivíduos mais solitários, questionando se a internet e as mídias digitais estão nos deixando mais próximos ou distantes uns dos outros.

Temos que reconhecer que a família deve estar em primeiro lugar, são eles nossos amigos e estão sempre a nossa espera nos momentos bons e ruins, para acolher e amparar.

In: http://bit.ly/3nyaGoh

Diz a fábula do burro que um dia, o burro de um camponês caiu num poço. Não chegou a se ferir, mas não podia sair dali por conta própria. Por isso o animal chorou fortemente durante horas, enquanto o camponês pensava no que fazer. Finalmente, o camponês tomou uma decisão cruel: concluiu que já que o burro estava muito velho e que o poço estava mesmo seco, precisaria ser tapado de alguma forma. Portanto, não valia a pena se esforçar para tirar o burro de dentro do poço. Ao contrário, chamou seus vizinhos para ajudá-lo a enterrar vivo o burro. Cada um deles pegou uma pá e começou a jogar terra dentro do poço. O burro não tardou a se dar conta do que estavam fazendo com ele e chorou desesperadamente. Porém, para surpresa de todos, o burro aquietou-se depois de umas quantas pás de terra que levou. O camponês finalmente olhou para o fundo do poço e se surpreendeu com o que viu. A cada pá de terra que caía sobre suas costas o burro a sacudia, dando um passo sobre esta mesma terra que caía ao chão. Assim, em pouco tempo, todos viram como o burro conseguiu chegar até a boca do poço, passar por cima da borda e sair dali trotando.

Assim como a fábula não podemos desistir dos nossos filhos e entes queridos. A vida tem nos jogado muita terra nas costas. Principalmente se já estiver dentro de um poço. O segredo para sair do poço, assim como o burro fez é sacudir a terra que se leva nas costas e dar um passo sobre ela. Cada um de nossos problemas é um degrau que nos conduz para cima. Podemos sair dos mais profundos buracos se não nos dermos por vencidos. Use a terra que lhe jogam para seguir adiante, libertando-se do ódio, das preocupações, simplificando a vida, dando mais e esperando menos, mas principalmente amando mais e aceitando que estamos diante de um problema que somente com muita sensatez iremos vencer.

A tecnologia e a internet estão aí e teremos que nos adaptarmos a essa realidade dinâmica que se modifica a cada dia, sem esquecermos de nossa essência: somos humanos e teremos que desenvolver ações alternativas para lidar com os conflitos modernos de modo a alcançar uma comunicação mais funcional entre nossos familiares, pais e filhos para o desenvolvimento da relação mais empática, com maior comunicação e ampliando as possibilidades de resolução conjunta dos problemas associados ao uso excessivo da Internet e tecnologias por parte dos envolvidos.